Os atletas espanhóis estão terminantemente impedidos de falarem sobre política durante as Olimpíadas de Pequim. A ordem partiu do presidente do Comitê Olímpico Espanhol (COE), Alejandro Blanco, relatam os enviados especiais do jornal El Pais aos jogos, Luis Martín e Juan José Mateo.
O dirigente avisou, segundo os repórteres, que não se poderá fazer qualquer declaração de conteúdo político na Vila e nas instalações olímpicas. Quem não cumprir as determinações poderá ficar sem credencial e sem alojamento. Ou seja, será banido da competição.
O anúncio parece absurdo, altamente cerceador da liberdade de expressão, mas não é. Absurdo mesmo é que a diretriz é uma interpretação deturpada da Carta Olímpica, o documento máximo, tipo a “Constituição” dos jogos olímpicos.
Na página 11 do documento, onde constam os Princípios Fundamentais do Olimpismo, há a seguinte mensagem: “Qualquer forma de discriminação em relação a um país ou pessoa em matéria de raça, religião, política, gênero ou o que seja é incompatível com o movimento olímpico”.
O presidente do COE relatou que a entidade fez uma consulta ao presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), Jaques Rogge, sobre a questão. Ele teria dito que “a Carta Olímpica será cumprida taxativamente”.
Pelo que diz o dirigente internacional, atletas que se pronunciarem contra as violações dos direitos humanos e os conflitos no Tibet estarão cometendo discriminação política contra a China. Discriminação política é o que a China faz em todo o lugar em que há protestos pró-Tibet, região comandada com braço de ferro pelo governo desde 1950.
Estranho disso tudo é que as lideranças internacionais são complacentes com esse espírito olímpico pregado pela China e não estão nem aí para a falta de liberdade no país asiático. Uma declaração aqui, outra acolá, nada muito contundente. É que nenhum país quer se indispor com esse mercado de 1,3 bilhão de pessoas, um dos maiores importadores do mundo.
Esse é o retrato da nova ordem mundial, diferente de 1936, por exemplo, quando das Olimpíadas de Berlim. Na época, diversas vozes se pronunciaram contra o regime nazista que dominava a Alemanha. Elas pressionavam pela participação de judeus nos jogos – vedada pelo governo -, ameaçando boicote, o que de certa forma surtiu algum efeito, mesmo que ínfimo.
Porém, o Comitê Internacional, a exemplo de agora, era contrário à interferência política internacional nos jogos e fazia vistas grossas às violações dos direitos humanos naquele país. Deu no que deu. Em 1939, os alemães invadem a Polônia e estouram a Segunda Guerra Mundial.
É verdade que o cenário em que a Segunda Grande Guerra ocorreu é bem diferente de agora, mas o ranço imperialista que dominou grande parte do século 20 continua em pleno século 21. E justificado nos Princípios Fundamentais do Olimpismo. Os atletas espanhóis que o diga.