Aniversário sem festa

26/03/2010

Os cidadãos de Porto Alegre não têm nada a comemorar neste 26 de março de 2010, aniversário de 238 anos da capital gaúcha. Apesar do ar provinciano, porém cosmopolita – clichê repetido por 11 entre 10 poetas –, a cidade apresenta problemas de dar inveja a qualquer megalópole. Um dos principais, na minha opinião, é a mobilidade urbana.

O trânsito está um caos, e os engarrafamentos da hora do rush estão se espalhando assustadoramente das principais avenidas para as ruas secundárias. Uma pesquisa do ano passado feita pela Fundação Dom Cabral revela que o motorista porto-alegrense fica em média uma hora e meia por dia preso em engarrafamentos. E a tendência é piorar. O mesmo estudo indica que se nada for feito em 2018 o trânsito de Porto Alegre entrará em colapso.

Esse cenário apocalíptico não é nada surpreendente, visto que os governos municipal, estadual e federal não têm um planejamento arrojado para solucionar o problema. Medidas paliativas – para não dizer inócuas – são vistas como grandissíssimas inovações.

Entre elas está a duplicação das Avenidas Beira-Rio e Tronco, que só ficam congestionadas em dias de jogo da dupla Gre-Nal. Seria ótimo duplicá-las, mas é muito mais urgente uma solução para a Independência, por exemplo, que diariamente é entupida de veículos. Especialistas já indicaram que o tráfego fluiriam melhor caso algumas ruas perpendiculares, como a Santo Antônio, cruzassem a avenida por baixo. As obras são consideradas de baixo custo, mas parecem nem estar nos planos da administração municipal. Não vou nem falar da Osvaldo Aranha, Goethe, Ipiranga e da 3ª Perimetral. Grande promessa para o trânsito de Porto Alegre, esta última já nasceu superada.

AEROMÓVEL – Outra obra para inglês ver – como outras que vem na esteira da Copa do Mundo – é o aeromóvel que ligará a estação da Trensurb ao Aeroporto Salgado Filho. Aposto que ninguém em sã consciência chegaria de uma viagem de avião e pegaria o Trensurb. Para quê? Para descer cheio de malas no meio daquela confusão (e perigo) que é o Terminal Parobé? Ou desembarcar em outra estação da região metropolitana, para depois pegar um ônibus que parte de hora em hora? Isso sem falar que o trecho do Aeroporto até o Trensurb tem 815 metros, uma piada. Até seria bonito, mas está muito aquém de ser essa maravilha pintada pelas autoridades. Maravilha seria pegar um metrô dentro do Aeroporto e descer no coração do Moinhos de Vento, do Bom Fim ou do Menino Deus, mas aí já é um sonho para um Estado que demorou quase 10 anos para resolver o imbróglio jurídico da ampliação em apenas 9,3 quilômetros da linha do Trensurb de São Leopoldo até Novo Hamburgo.

Além do problema da mobilidade urbana, a cidade tem um enorme potencial turístico subaproveitado, um índice de tratamento de esgoto que é um dos mais baixos entre as capitais do Brasil, um grande número de áreas públicas degradadas e bolsões de pobreza por todos os lados. Apesar de ter nascido e crescido aqui – o que me orgulha muito –, definitivamente não tenho vontade de cantar parabéns neste 26 de março.

Retaliação aos EUA não resolve o problema

12/03/2010

O Brasil demonstrou pulso firme ao anunciar, esta semana, a retaliação comercial aos Estados Unidos em razão dos subsídios pagos por aquele governo aos seus produtores rurais.  

A medida, porém, esconde a grave e crônica deficiência dos governos brasileiros, sejam eles de qualquer matiz ideológica. Anunciando barreiras a produtos importados dos Estados Unidos, o Brasil leva a entender que essa é a razão da nossa baixa competitividade, tanto no mercado internacional, como no interno.

Sabe-se, porém, que o grande gargalo para o crescimento do Brasil são os impostos, que encarecem os nossos produtos aqui dentro e também lá fora. Antes de sobretaxar as importações – o que pode resultar em inflação, dada a redução da oferta -, o país deveria fazer a lição de casa, reduzindo a carga tributária para a produção de bens e serviços.

Agora terá que arcar com o ônus de uma guerra comercial com um dos principais importadores dos produtos brasileiros, sem que tenhamos garantias de que a retaliação gere benefícios para o consumidor e a indústria nacional.

A partilha do pré-sal

13/11/2009

A discussão sobre a partilha dos royalties do petróleo do pré-sal lança luz sobre um comportamento comum entre os governantes: o egoísmo e a conveniência política em detrimento do bem comum.

É inadmissível que uma riqueza que brota do solo brasileiro sirva para encher de dinheiro os cofres públicos dos estados e municípios que estão localizados, por força de um acaso geográfico, bem no meio de uma baita reserva de petróleo.

As comunidades que são afetadas diretamente com os malefícios ambientais da extração e processamento do petróleo devem, sim, ser recompensadas de alguma forma. Mas não abocanhando ¼ do que é gerado. Os royalties gerados com a extração do minério devem ser distribuídos de forma mais equânime entre os estados e municípios, estejam eles no litoral, estejam nos rincões do oeste brasileiro.

Os partidários dessa desigualdade na distribuição dos recursos não querem apenas defender os interesses daqueles que os colocaram no poder. Querem usar a questão para angariar simpatia popular e se credenciar para uma próxima eleição.

Os 10% do FGTS

07/11/2009

A Comissão de Assuntos Econômicos do Senado aprovou esta semana o projeto de lei que prevê para 2012 a extinção do pagamento, por parte da empresas, de 10% de multa em cima do saldo do FGTS do funcionário demitido sem justa causa. O percentual é recolhido para o governo a título de contribuição, somando-se aos 40% pagos de indenização ao trabalhador.

A medida, se passar pelo plenário da Câmara dos Deputados, é muito bem-vinda, já que vai contra o nefasto hábito do governo de tornar permanentes contribuições que nasceram para ser provisórias – instituídos por lei complementar de 2001, os 10% são para cobrir o déficit gerado pelos planos Verão e Collor I.

Estranhamente as opiniões acerca da questão ganharam um tom ideológico, quando deveriam ser técnicas. De um lado, aqueles que acham que a medida é salutar porque desonera a folha de pagamento e facilita a contratação. Do outro, os que pensam que a medida é ruim porque coloca em risco os empregos (já que facilita o desligamento) e retira direito dos trabalhadores.

Sobre essa questão tenho alguns apontamentos a fazer que são contrários às duas ideias. São eles:

1 – O adicional de 10% é ruim, sim, porque acrescenta mais uma obrigação às empresas, castigadas o suficiente pelo custo-brasil. Porém, discordo da idéia de que a medida de extingui-lo vai ter impacto direto na geração de empregos. A folha de pagamento das empresas não tem custo alto por causa dos 10%, que é pago uma vez, quando da demissão do trabalhador. O custo é alto porque sobre a folha paga todo mês incide muito imposto. Quem sabe baixando uns 4 ou 5 pontos percentuais do INSS patronal, por exemplo, as empresas se sentiriam mais estimuladas a contratar. E alguns especialistas dizem que, apesar do rombo momentâneo nas contas da previdência, medidas como essa poderia, no longo prazo, incrementar a arrecadação, pois haveria um grande aumento na base de contribuição a partir dos empregos gerados.

2 – A medida torna, sim, os desligamentos mais fáceis, ainda que haja um cipoal de obrigações na legislação trabalhista que os desestimulem. Mesmo assim, é errado pensar em manter empregos onerando as empresas com uma contribuição criada para tapar um buraco feito pelos governos Sarney e Collor. Os 10% não são um direito do trabalhador. É dinheiro que vai para os cofres públicos. Só haverá um cenário favorável ao fomento de emprego quando as empresas conseguirem reverter parte dessa fortuna paga aos governos para o investimentos nos seus negócios, passando a ter, consequentemente, a necessidade de contratar.

Por que o Grêmio não ganha fora de casa?

07/11/2009

A pergunta que intitula este post é a que os gremista mais se fizeram nesse Brasileirão. A única vitória do Grêmio fora do Olímpico no campeonato foi contra o Náutico, nos aflitos, em 13 de setembro. O resto foi só derrota e empate. Como o futebol não é uma ciência exata, é difícil responder porque. Ainda assim, me arrisco a formular uma tese.

O Grêmio não ganha fora porque joga como se estivesse no Olímpico: vai pra cima, marca o adversário no campo de ataque, corre sem parar. Seria uma boa tática não fosse o fato de o Grêmio errar muito gol. Se é para se desgastar, que seja para traduzir em gols as oportunidades que tem.

Essa afobação toda para fazer, principalmente na primeira metade do primeiro tempo, desorganiza a equipe e favorece que o time mandante saia no contra-ataque e faça o gol nas primeiras oportunidades que cria. E desde que futebol é futebol, levando o primeiro gol fora de casa, é dificílimo buscar uma virada, já que o time que está vencendo se recua, a torcida se inflama e o desespero e o desânimo começam a tomar conta do time visitante.

Portanto, é preciso prudência quando jogar em outros pagos. A obrigação de ganhar está com o time que recebe. É melhor jogar mal, chutando a bola para onde aponta nariz, do que fazer um espetáculo de lances perigos, mas levar depois.

Os Princípios Fundamentais do Silêncio

05/08/2008

Os atletas espanhóis estão terminantemente impedidos de falarem sobre política durante as Olimpíadas de Pequim. A ordem partiu do presidente do Comitê Olímpico Espanhol (COE), Alejandro Blanco, relatam os enviados especiais do jornal El Pais aos jogos, Luis Martín e Juan José Mateo.

O dirigente avisou, segundo os repórteres, que não se poderá fazer qualquer declaração de conteúdo político na Vila e nas instalações olímpicas. Quem não cumprir as determinações poderá ficar sem credencial e sem alojamento. Ou seja, será banido da competição.

O anúncio parece absurdo, altamente cerceador da liberdade de expressão, mas não é. Absurdo mesmo é que a diretriz é uma interpretação deturpada da Carta Olímpica, o documento máximo, tipo a “Constituição” dos jogos olímpicos.

Na página 11 do documento, onde constam os Princípios Fundamentais do Olimpismo, há a seguinte mensagem: “Qualquer forma de discriminação em relação a um país ou pessoa em matéria de raça, religião, política, gênero ou o que seja é incompatível com o movimento olímpico”.

O presidente do COE relatou que a entidade fez uma consulta ao presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), Jaques Rogge, sobre a questão. Ele teria dito que “a Carta Olímpica será cumprida taxativamente”.

Pelo que diz o dirigente internacional, atletas que se pronunciarem contra as violações dos direitos humanos e os conflitos no Tibet estarão cometendo discriminação política contra a China. Discriminação política é o que a China faz em todo o lugar em que há protestos pró-Tibet, região comandada com braço de ferro pelo governo desde 1950.

Estranho disso tudo é que as lideranças internacionais são complacentes com esse espírito olímpico pregado pela China e não estão nem aí para a falta de liberdade no país asiático. Uma declaração aqui, outra acolá, nada muito contundente. É que nenhum país quer se indispor com esse mercado de 1,3 bilhão de pessoas, um dos maiores importadores do mundo.

Esse é o retrato da nova ordem mundial, diferente de 1936, por exemplo, quando das Olimpíadas de Berlim. Na época, diversas vozes se pronunciaram contra o regime nazista que dominava a Alemanha. Elas pressionavam pela participação de judeus nos jogos – vedada pelo governo -, ameaçando boicote, o que de certa forma surtiu algum efeito, mesmo que ínfimo.

Porém, o Comitê Internacional, a exemplo de agora, era contrário à interferência política internacional nos jogos e fazia vistas grossas às violações dos direitos humanos naquele país. Deu no que deu. Em 1939, os alemães invadem a Polônia e estouram a Segunda Guerra Mundial.

É verdade que o cenário em que a Segunda Grande Guerra ocorreu é bem diferente de agora, mas o ranço imperialista que dominou grande parte do século 20 continua em pleno século 21. E justificado nos Princípios Fundamentais do Olimpismo. Os atletas espanhóis que o diga.

Estado-paralelo na campanha eleitoral

29/07/2008

Faz tempo que a polícia brasileira perdeu o monopólio da violência, a ponto de a expressão “Estado-paralelo” virar um dos maiores clichês quando o assunto é (in) segurança pública.

Mas nada no Brasil é tão ruim que não possa piorar. Agora, traficantes e milicianos cariocas estão impedindo candidatos de subirem aos morros e fazerem campanha, bem como jornalistas de fazerem a cobertura.

Está certo que muitos desses candidatos até merecem uns pipocos, tamanha a cara de pau que exibem ao fazer promessas. Ainda assim, pressões desse tipo são ou deveriam ser inadmissíveis num país que se orgulha da sua recente democracia e suas “instituições fortes”.

Denúncias desse tipo no Rio de Janeiro motivaram o ministro da Justiça, Tarso Genro, a oferecer ao Estado o apoio da Polícia Federal e da Força de Segurança Nacional para combater essas práticas.

A oferta foi bem recebida pelo governador Sérgio Cabral, mas surpreendentemente rejeitada pelo desembargador Roberto Wider, presidente do Tribunal Regional Eleitoral do Rio, instituição que deveria zelar pela legalidade na campanha eleitoral. O argumento é de que é preciso recolher mais dados sobre a ocorrência, dando a entender que as denúncias poderiam ser manobra da oposição.

O desembargador teme a politização da violência nas eleições, como se a violência não fosse um tema para as eleições. Ao que parece, será preciso algum candidato tomar um tiro na cabeça para as autoridades tomarem uma atitude.

O remédio para a inflação

23/07/2008

Mais um reunião do Comitê de Política Monetário (Copom) em curso e as apostas estão na mesa. Uns dizem que o aumento da Taxa Básica de Juros (Selic) será de 0,5%, outros apostam em 0,75%. Seja qual for o percentual, a medida ajudará muito pouco no combate à inflação. Todo mundo está cansado de saber que o aumento dos preços é um movimento global e não um efeito do aumento da demanda interna brasileira. O que traria algum resultado para a redução dos preços no longo prazo seria facilitar o crédito para a indústria, principalmente agrícola, para que produza mais e aumente a oferta. E isso, definitivamente, não se faz aumentando juros. Precisamos encontrar de uma vez por todas outro remédio para a inflação, sem tantos efeitos colaterais.

O adeus a Roger

05/07/2008

O meia Roger dá adeus ao Grêmio e vai jogar no Catar F.C. A notícia pegou todos os gremistas de surpresa nesta sexta-feira e deixou o presidente Paulo Odone furioso. Pois eu acho que estão fazendo uma tempestade num copo d`água.

As declarações de Roger há algum tempo dando conta de que teria vontade de terminar a carreira no Grêmio foram encaradas muito a sério. Todo profissional diz que quer crescer numa empresa e quer fazer carreira nela – desde que não receba uma proposta irrecusável de emprego na concorrente.

No caso do meia gremista, essa oferta foi de 5 milhões de dólares por um contrato de dois anos. Quem recusaria? Além disso, Roger nem é isso tudo que falam, é um jogador regular. Cai muito em campo e é fácil de anulá-lo, bastando o time adversário realizar uma marcação mais apertada em cima dele.

Não acho que o desempenho de Roger seja lá essas coisas. Dos 22 jogos em que atuou, fez 10 gols. A média até seria boa para um meia- articulador, não fosse o fato de que desses, sete foram marcados de pênalti, fácil, fácil.   

É claro que não é bom perder o jogador agora, em meio à boa fase que o Grêmio passa no Brasileirão, porque mexe com o grupo, que está se acertando. Mas o desfalque não pode ser encarado como o fim do mundo, mas sim fruto da nova lógica do futebol brasileiro. Os clubes formam (ou recuperam) os profissionais, e os times estrangeiros vêm e buscam os craques com propostas tentadoras, dificílimas de cobrir.

Foto: Site do Grêmio

Fim decepcionante para a CPI

05/07/2008

A CPI do Detran gaúcho, que investiga o desvio de R$ 44 milhões da autarquia, chega ao fim como as demais: com resultados pífios. No relatório lido ontem na Assembléia Legislativa do Estado, apenas uma novidade sem importância além do que já foi denunciado pelo Ministério Público à Justiça Federal de Santa Maria.

Sempre que uma CPI acaba com resultados decepcionantes, algumas vozes da imprensa saem em defesa desse controverso mecanismo de investigação. Dizem que, pelo menos, serviu para dar visibilidade às falcatruas de políticos e pessoas ligadas a eles.

É uma pena que para “dar visibilidade” a essas coisas, a imprensa precise ter como pano de fundo o espetáculo de plenário, onde a conveniência política fala muito mais alto que os critérios técnicos de investigação. As brigas e negociações entre oposição e governo em torno do relatório final é uma prova de que a apuração dos fatos é totalmente contaminada pelo ambiente político. O Ministério Público e a Polícia Federal podem dar respostas muito mais precisas aos cidadãos do que os deputados com os seus relatórios “politicamente viáveis”.

É por isso que volto a defender a extinção das CPI`s. Além de ser um desperdício de dinheiro – os deputados que trabalham nelas recebem salários e verbas de gabinete graúdas –, as comissões atrasam o desenvolvimento do estado e do país, porque colocam de lado o debate em torno de projetos importantes para o povo. Que se dê visibilidade às denuncias graves contra pessoas públicas. Não no palanque eleitoral da CPI, e sim na instância mais adequada: a justiça.


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