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Milagre nos Andes

Junho 26, 2007

Dia desses li um livro o qual gostaria de recomendar para vocês. Ele é, senão o melhor, um dos melhores livros que eu já li. É Milagre nos Andes (ed. Objetiva), de Nando Parrado, um dos sobreviventes do acidente aéreo envolvendo uma equipe uruguaia de Rúgbi, em 1972, na Cordilheira dos Andes. Já havia assistido ao filme Vivos, dos anos 90, que conta essa história, e não preciso nem dizer que o livro é infinitamente melhor. Ele traz muito mais detalhes e a versão mais fidedigna do que aconteceu, pois foi escrito pelo próprio sobrevivente, com o apoio de escritor Vince Rause.

 Para quem não sabe da história, é o seguinte: em 1972, uma equipe de jovens uruguaios, jogadores de Rúgbi, alguns na companhia de amigos e familiares, embarca de Montevidéu num avião fretado – um Fairchild F–227 da Força Aérea Uruguaia – rumo a Santiago, no Chile. O objetivo era participar de um jogo amistoso e passear. Mas no momento em que estavam sobrevoando a Cordilheira dos Andes, o avião não resiste às más condições climáticas e despenca numa geleira, matando 13 pessoas. Esse foi o começo da mais espetacular prova de resistência humana que se tem notícia na história. 

 Após a queda, outros 16 passageiros foram morrendo um a um, vítimas dos ferimentos, da fome, das temperaturas glaciais e até de uma avalanche. No fim, depois de 72 dias presos naquele lugar inóspito, comendo a carne dos corpos dos mortos para se alimentarem, os 16 sobreviventes são resgatados, não sem antes dois deles – Nando Parrado e Roberto Canessa – realizarem uma viagem épica em busca de ajuda. Por dias, os dois caminharam em busca de socorro, enfrentando, nas montanhas, temperaturas desumanas, ventos violentos, altitudes sufocantes, o cansaço, os ferimentos e tudo mais que uma estada de mais de dois meses na Cordilheira dos Andes pode provocar. Exaustos, os dois acabam por encontrar uma propriedade onde pedem ajuda, para eles próprios e para os demais que ficaram na fuselagem a quilômetros dali. Isso tudo é informação bem conhecida; o final todos já conhecem. Saber disso tudo não compromete as surpresas que vocês terão lendo o livro.

SENSAÇÕES – O relato é extraordinário, pois desperta sensações que eu só havia tido em filmes. É de embrulhar o estomago ler que um dos sobreviventes arrancou uma barra de ferro da barriga de outro e junto com ela tirou também vísceras, e mesmo assim o sujeito não morreu. É de perder a fome o autor relatando os momentos em que os sobreviventes comiam carne humana, no limiar entre a civilização e a selvageria. É angustiante ler que os sobreviventes ouviram num rádio que as buscas haviam sido canceladas, enquanto ainda estavam naquele lugar que não oferece as mínimas condições de vida, refugiados em uma fuselagem toda arrebentada e rodeados de cadáveres e montanhas enormes. É muito triste o autor contando como foram os últimos momentos de vida da irmã, que se ferira na queda, mas não resistira àquele suplício. E também é uma lição de vida, dessas nem um pouco caretas, a descrição do autor sobre o que lhe passava pela cabeça naquele lugar e depois de sair dele.

Em outras obras ficaria irritado pela quantidade de referências a Deus, mas visto que, na época, Nando era um jovem estudante de colégio religioso à beira da morte, isso é perfeitamente aceitável. A provação e os horrores a que foram submetidos aqueles meninos impede qualquer um de pensar o contrário.

Atualmente, alguns dos sobreviventes dão conferências voltadas a empresários, empreendedores e desportistas. O grupo também se reúne, anualmente, no dia 22 de dezembro para celebrar o aniversário, pois nesta data, em 1972, todos nasceram de novo. Mais informações vocês conseguem no site do grupo, que também é bem legal.