ENTREVISTA
Flávio Stein, professor do curso de Ciências Contábeis da Feevale
O mês de maio foi marcado pela queda vertiginosa do preço do dólar, rompendo a barreira dos R$ 2. A depreciação da moeda americana em relação ao real é reflexo do grande volume de dólares que ingressa no país, atraído pela estabilidade econômica e pelos juros altos. Com esse cenário, uns perdem e outros ganham. O Sobrequalquercoisa conversou com o professor do curso de Ciências Contábeis da Feevale, Flávio Stein, para entender o que está acontecendo com a economia brasileira. Confira trechos da entrevista.
Foto: Miguel Eich
Sobrequalquercoisa - O que o Brasil tem hoje que causa tanta atratividade dos investidores estrangeiros?
Flávio Stein – Isso não vem só do último ano, vem acontecendo há mais tempo, à medida que o Brasil conseguiu dominar sua inflação. Então somos obrigados a voltar a 1994 e 1995, com o início do Plano Real. O Brasil conseguiu dominar a inflação e disciplinar os gastos públicos, com a Lei de Responsabilidade Fiscal. Depois nós tivemos um interregno em 2002, por causa da eleição de Lula. À medida que era noticiada a possibilidade de ele, que tinha um discurso de oposição, diferente de Fernando Henrique, se eleger presidente, a bolsa caia, o dólar disparava e o risco-país também. Isso só foi resolvido com a entrada do presidente, seguindo a plataforma econômica de FHC.
SQC - É por isso que as agências de classificação de risco vêm melhorando a posição do Brasil?
Flávio – O risco-país anterior à posse do Lula chegou a atingir quase 4 mil pontos. Essa taxa quer dizer que nós pagávamos 40% ao ano a mais que um título do tesouro americano. Quando Lula começou a governar, o risco foi caindo a 2 mil pontos e depois caiu ainda mais. Quando chegou a menos de mil pontos, nós já festejamos. Hoje, já está em 130, 140 pontos, o que significa que estamos pagando 1%, 1,5% a mais que os títulos americanos. Isso gera um risco menor. E com a taxa Selic em aproximadamente em 12%, está valendo a pena para o investidor estrangeiro aplicar recursos no Brasil.
SQC - Qual o percentual ideal para a taxa básica de juros?
Flávio – O percentual ideal é o que o Banco Central entende que seja, porque ele está preocupado com a inflação. Se a taxa de juros baixa muito, há uma corrida para o consumo, e a demanda maior gera inflação, muito presente na cabeça do povo brasileiro. Foram 20 anos de inflação alta. Nós não estamos acostumados a pequenos reajustes de salário. A inflação está em 3,5%, e as pessoas ainda acham que isso não é verdade, mas nós sabemos que isso se confirma. Eu entendo que a taxa de juros deveria baixar mais, fazendo com que o dólar tenha uma recuperação do seu preço. Mas se o dólar baixo é ruim para o Vale do Sinos, é bom para controlar a inflação. Como a inflação está dominada, por volta de 3,5 a 4%, dentro da meta, entende-se que a taxa de juros poderia baixar mais, quem sabe a 8%. Mas isso não pode acontecer muito rápido, porque assim haveria perdas internacionais muito acentuadas.
SQC - O Banco Central vem intervindo no mercado de câmbio comprando dólares. Porque não reduzir a oferta de dólares cortando com mais vigor os juros em vez de comprar a moeda?
Flávio – Esta é a questão que está sendo discutida. Toda a vez que o BC compra dólares para aumentar o preço da moeda e o dólar acaba caindo, ele tem prejuízo. Isso está dentro da política econômica traçada pelo Conselho Monetário Nacional. E o Banco Central a executa. Ele está mirando unicamente na inflação; deveria olhar outras questões também. Essa é uma crítica que os economistas e os empresários estão fazendo e eu acho procedente. Mas o dólar é flutuante e ele não pode ser administrado muito. Não dá para baixar acentuadamente a taxa de juros de uma hora para outra. É muito difícil conseguir crédito externo, mas é fácil perdê-lo.
SQC - O que é melhor: dólar apreciado e exportações em alta ou dólar desvalorizado e inflação baixa?
Flávio – Essa última. Mesmo custando alguns empregos e não sintonizado com as opiniões, principalmente das empresas exportadoras, eu entendo que o Brasil não pode se proteger internamente demasiadamente. O Brasil tem que lutar por outras questões: diminuição tributária e a diminuição do custo-Brasil, aí estou falando de logística, com investimentos em portos, estradas… Também ampliar investimentos para viabilizar as exportações, porque as empresas que estão sintonizadas com as novas tecnologias e com novos mercados estão conseguindo exportar. Quem não está conseguindo exportar são empresas que estão fundamentalmente em cima de mão-de-obra. As mesmas empresas que exportavam com um salário mínimo de 100 dólares, agora estão exportando com um salário mínimo por volta dos 200 dólares. Então o Brasil teria que baixar outros custos para poder compensar isso. E os custos são tributários, o custo-Brasil, custos sociais, inclusive.
SQC - Alguns especialistas dizem que há uma “bolha” na Bolsa de Valores. Isto procede?
Flávio – Bolha é uma coisa que está um pouco acima, que pode estourar. É verdade que pode. Mas sempre teve gente dizendo que há uma bolha na economia americana, bolha imobiliária… e eventualmente tem. Mas o que se sabe é que as empresas brasileiras estão mostrando muita força nos seus resultados. Das empresas brasileiras que estão operando no mercado acionário, nós temos em torno de 40 já nos mercados internacionais com muito sucesso. Se existe bolha, se isso é verdade ou não, só o tempo vai nos dizer. Quando começam esses boatos, o que tem que ter é um cuidado maior para investir. Jamais vender o patrimônio, uma casa onde mora e aplicar tudo diretamente numa bolsa. Isso nunca foi um bom negócio.